CORRIDA "COM O PAI"

escolhi-a porque a data ia de encontro ao meu calendário de corrida para este ano: 20 de março era uma boa altura para me recuperar d...


escolhi-a porque a data ia de encontro ao meu calendário de corrida para este ano: 20 de março era uma boa altura para me recuperar do joelho (achei eu) e para me preparar convenientemente.
o facto de ser “a corrida do pai” no início não me agradou muito, confesso.
o que ia eu fazer numa corrida com pais e filhos a correrem juntos, quando o meu já não está comigo?
asneira, claro.
inscrevi-me no dia em que fazia oito anos desde que o corpo do meu pai não teve mais força para se agarrar à vida e a nós, que era para ele (quase) a mesma coisa.
e comecei a preparar-me.
e foi tão difícil e com tanto para contar, que vai ficar para outra altura.
entretanto decidi que a corrida do dia do pai afinal ia ser a corrida com o pai.
com o meu.
que mesmo estando cá nunca a poderia ter feito por causa dos graves problemas nos músculos das pernas que o/nos assombraram desde sempre.
e de repente, do nada, lembrei-me: vou fazer um dorsal com o nome dele e levá-lo nas costas.
afinal ia correr com o meu pai, e ele comigo.
os dias anteriores à corrida foram emocionalmente difíceis por outras razões, e até pensei em não ir.
afinal, se não estava muito entusiasmada, se as condições não eram as melhores, e se (mais uma vez), ia sozinha, qual o problema?
o que me valeu foi a pessoa que sabe o que está a fazer, que não me deixou pensar duas vezes nisso.
e ainda bem.
o domingo que prometia ser muito chuvoso e frio amanheceu indeciso.
cheguei ao local da partida em cima da hora (praticamente não aqueci) e fiquei mesmo nos últimos lugares, junto das pessoas que iam participar na caminhada.
mal dei conta de ter sido dada a partida.
de garrafa na mão (como sempre...), lá fui, num ritmo que achei lento, mas quando cheguei à Foz, achei que não estava nada bem, que se calhar até parava e ficava por ali.
foi então que me lembrei do dorsal. e do que ele significava, e fui ver se ainda continuava bem preso às minhas costas.
e sim, lá estava ele, bem firme, por isso também eu tinha de estar.
pela primeira vez ignorei o 1º mandamento de quem corre: sempre, mas sempre, dar dois nós nos cordões, e tive de parar. mas recuperei.
contrariamente às previsões meteorológicas, ainda antes de começarmos a correr, o sol abriu.
e comecei a sentir calor.
o sol que no início recebi de bom grado, estava agora a incomodar-me.  levei a minha camisola da nike, a mesma da s. silvestre, e isso sim, foi asneira.
erro de principiante. demasiado quente.
deitei (algumas vezes) um bocado de água sobre a cabeça, e ajudou.
quando vi a prova na internet pela primeira vez, pensei, olha que percurso fácil (muito plano) e bonito (um bom bocado junto ao mar).
não percebi então que as duas grandes retas (a da foz e a da av. da boavista) iam ser para mim bem difíceis. mais do que qualquer subida.
a questão é que vamos em esforço, e de repente olhamos em frente e parece que a estrada não tem fim e só se veem pessoas a correr até quase perder de vista.
e isso custou-me imenso porque parecia que não ia conseguir.
na av. da boavista ainda foi pior, subia ligeiramente, o sol estava forte e parecia que não saía do sítio.  
custou-me muito.
percebi então aquilo que já tinha ouvido dizer, que a corrida é quase mais mental do que física.
mais para o fim decidi acelerar um pouco, a ver se não fazia um tempo miserável. apesar de levar a minha aplicação da nike ligada, parecia que não percebia que estava a correr a um ritmo muito bom para mim, mas a certa altura pensei, e se conseguisse fazer em menos de uma hora?
acabei por não o fazer (apesar de a minha aplicação dizer o contrário), mas mesmo assim foi brutal.
só no fim é que tomei mesmo consciência de que corri a um ritmo mais rápido do que alguma vez o fiz, e terminei feliz.
mais uma vez.
correr faz-me sentir assim.
ainda não sei muito bem porquê, mas faz.
só espero poder continuar.

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