SÓ SILVESTRE

                                                                                                   (primeira foto de   www.rpedror.wix....

                                                                                                   (primeira foto de www.rpedror.wix.com/ruipedroribeiro.)



não sei porque é que a escolhi.
mas veio-me logo à cabeça quando em Setembro comecei a achar que talvez fosse capaz.
corrida de 10 ou 5.
a pessoa que sabe o que está a fazer, um pouco a medo (ou para não me criar ansiedade), apostou nos 5.
a partir daí comecei a namorar a ideia, a fantasiar com ela, a vivê-la como gosto: com emoção e intensidade.
de cada vez que abordava a possibilidade dos 10, ouvia: é muito, Sara, e eu conformava-me. afinal, correr 5 km numa prova já era brutal...
em finais de outubro, mal foi publicado o percurso (sim, porque devo ter sido a pessoa mais entusiasta a ver o site da runporto) fiquei assustada: para ambas as distâncias havia uma subida enorme...
mas não me deixei (e não me deixaram) abater.
queria participar e ia conseguir, nem que tivesse de andar algum bocado, como me disseram.
entretanto as minhas pernas e a confiança em mim foram progredindo.
a minha e a de quem sabia o que estava a fazer.
e em inícios de Novembro corri em Guimarães os meus primeiros 10 km.
sem contar. sem stressar antecipadamente. sem sacrifício. com imensa alegria e choque, confesso.
e foi aí que me atrevi a perguntar: será que na prova posso correr os 10?
e lá obtive a tão esperada resposta que me deu a confiança que me faltava.
sim, ia correr numa prova de 10 km!
à minha volta não via ninguém entusiasmar-se com a ideia, e até em casa ouvi comentários evasivos à hipótese de participar.
a verdade é que no início achei que ia precisar de alguém comigo, e que todas as pessoas eram bem-vindas e que também gostava de partilhar a experiência com quem me é mais próximo e com quem estava comigo nesta aventura desde o início.
e não me inscrevia. ia adiando à espera de quem se decidia a ir. ou não. amigos, família, treinador.
uma série de mal-entendidos levou a que achasse que ninguém queria mesmo ir, e nos últimos dias de Novembro me decidisse: vou-me inscrever sozinha.
e assim fiz.
e pela primeira vez fui um número: o 12732!
já era oficial, já era a sério! agora é que ia ser!
passadas poucas horas recebo a informação de que as inscrições tinham esgotado.
fiquei sem reação.
quase que não conseguia!
então e agora? ia sozinha?
esta inquietação foi simplesmente resolvida: durante um treino, veio (mais uma vez) a calma. e a resposta.
sim, ia sozinha.
porque afinal não precisava de ninguém.
porque afinal o que fazia sentido era ir só.
porque afinal era mesmo assim que tinha de ser.
Só Silvestre, aí ia eu...
no dia (e nos anteriores também), muita ansiedade e emoção à mistura.
tal como me disse uma das minhas pessoas (que participou na prova de Lisboa), o primeiro momento foi o mais emocionante: pensei no meu Pai, pensei no esforço dos últimos meses, no medo, e vieram-me à cabeça montes de imagens dos treinos, da fisioterapia...
depois de acalmada a emoção que quase fugiu disparada pelos olhos, percebi que a temida subida da prova estava mesmo aí e foi então que veio a concentração (afinal tenho essa capacidade como se vê na primeira fotografia que foi um presente maravilhoso de um amigo fotógrafo), a abstração do que me rodeava e as palavras tão proferidas nos últimos dias por quem torcia por mim: “devagar, Sara, devagar!”.
e assim fui, agarrada à minha garrafa e a tentar não pensar na distância que ainda faltava e naqueles que me ultrapassavam.
de repente, sem perceber bem como, parou de subir, e pensei, será que já passou?
mantive-me devagar com medo de que a tão famigerada subida não tivesse passado assim tão rápido. não podia ser, não podia tê-la feito assim tão facilmente. não isenta de esforço, claro, mas sem sacrifício, sem dor.
continuei ainda a ritmo lento, até que pensei, bom, isto afinal sou só eu e as minhas sapatilhas como tantas outras vezes, e lentamente comecei a desfrutar.
alternando a música que ecoava na minha cabeça com a emoção, lá fui eu.
feliz. muito feliz.
a correr e a receber o calor e entusiasmo das pessoas que, sem eu perceber porquê, saíram à rua num fim de tarde frio para ver outros a cumprir um sonho ou simplesmente a divertirem-se.
e foi o que isso foi para mim.
o realizar de um sonho.
e comecei a ultrapassar pessoas, com um sorriso nos lábios, sempre com um sorriso.
e com o coração cheio.


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