SÓ SILVESTRE
17:02
mas veio-me logo à cabeça quando em Setembro
comecei a achar que talvez fosse capaz.
corrida de 10 ou 5.
a pessoa que sabe o que está a fazer, um
pouco a medo (ou para não me criar ansiedade), apostou nos 5.
a partir daí comecei a namorar a ideia, a
fantasiar com ela, a vivê-la como gosto: com emoção e intensidade.
de cada vez que abordava a possibilidade dos
10, ouvia: é muito, Sara, e eu conformava-me. afinal, correr 5 km numa prova já
era brutal...
em finais de outubro, mal foi publicado o
percurso (sim, porque devo ter sido a pessoa mais entusiasta a ver o site da
runporto) fiquei assustada: para ambas as distâncias havia uma subida enorme...
mas não me deixei (e não me deixaram)
abater.
queria participar e ia conseguir, nem que
tivesse de andar algum bocado, como me disseram.
entretanto as minhas pernas e a confiança em
mim foram progredindo.
a minha e a de quem sabia o que estava a
fazer.
e em inícios de Novembro corri em Guimarães
os meus primeiros 10 km.
sem contar. sem stressar antecipadamente. sem
sacrifício. com imensa alegria e choque, confesso.
e foi aí que me atrevi a perguntar: será que
na prova posso correr os 10?
e lá obtive a tão esperada resposta que me
deu a confiança que me faltava.
sim, ia correr numa prova de 10 km!
à minha volta não via ninguém entusiasmar-se
com a ideia, e até em casa ouvi comentários evasivos à hipótese de participar.
a verdade é que no início achei que ia
precisar de alguém comigo, e que todas as pessoas eram bem-vindas e que também
gostava de partilhar a experiência com quem me é mais próximo e com quem estava
comigo nesta aventura desde o início.
e não me inscrevia. ia adiando à espera de
quem se decidia a ir. ou não. amigos, família, treinador.
uma série de mal-entendidos levou a que
achasse que ninguém queria mesmo ir, e nos últimos dias de Novembro me
decidisse: vou-me inscrever sozinha.
e assim fiz.
e pela primeira vez fui um número: o 12732!
já era oficial, já era a sério! agora é que
ia ser!
passadas poucas horas recebo a informação de
que as inscrições tinham esgotado.
fiquei sem reação.
quase que não conseguia!
então e agora? ia sozinha?
esta inquietação foi simplesmente resolvida:
durante um treino, veio (mais uma vez) a calma. e a resposta.
sim, ia sozinha.
porque afinal não precisava de ninguém.
porque afinal o que fazia sentido era ir só.
porque afinal era mesmo assim que tinha de
ser.
Só Silvestre, aí ia eu...
no dia (e nos anteriores também), muita
ansiedade e emoção à mistura.
tal como me disse uma das minhas pessoas
(que participou na prova de Lisboa), o primeiro momento foi o mais emocionante:
pensei no meu Pai, pensei no esforço dos últimos meses, no medo, e vieram-me à
cabeça montes de imagens dos treinos, da fisioterapia...
depois de acalmada a emoção que quase fugiu disparada
pelos olhos, percebi que a temida subida da prova estava mesmo aí e foi então
que veio a concentração (afinal tenho essa capacidade como se vê na primeira fotografia que foi um presente maravilhoso de um amigo fotógrafo), a abstração do que me
rodeava e as palavras tão proferidas nos últimos dias por quem torcia por mim:
“devagar, Sara, devagar!”.
e assim fui, agarrada à minha garrafa e a
tentar não pensar na distância que ainda faltava e naqueles que me
ultrapassavam.
de repente, sem perceber bem como, parou de
subir, e pensei, será que já passou?
mantive-me devagar com medo de que a tão
famigerada subida não tivesse passado assim tão rápido. não podia ser, não
podia tê-la feito assim tão facilmente. não isenta de esforço, claro, mas sem
sacrifício, sem dor.
continuei ainda a ritmo lento, até que
pensei, bom, isto afinal sou só eu e as minhas sapatilhas como tantas outras
vezes, e lentamente comecei a desfrutar.
alternando a música que ecoava na minha
cabeça com a emoção, lá fui eu.
feliz. muito feliz.
a correr e a receber o calor e entusiasmo
das pessoas que, sem eu perceber porquê, saíram à rua num fim de tarde frio para
ver outros a cumprir um sonho ou simplesmente a divertirem-se.
e foi o que isso foi para mim.
o realizar de um sonho.
e comecei a ultrapassar pessoas, com um
sorriso nos lábios, sempre com um sorriso.
e com o coração cheio.

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